Quanto cobrar por um quadro de comando: a conta do eletricista MEI
Por Juliano Walter · publicado em · 11 min de leitura
Números de exemplo, calculados pelo Precifa. Não é um cliente.

Um cliente chama você para montar um quadro de comando. Você olha os motores, anota o material e ele pergunta quanto vai ficar. É nesse momento que a maioria dos eletricistas chuta. Uns cobram uma porcentagem do material. Outros repetem o preço do último quadro. Os dois jeitos erram pelo mesmo motivo. Nenhum deles conta o tempo que o serviço leva.
Este texto mostra, na prática, como montar esse preço do começo ao fim. Você vai ver as etapas que todo quadro tem, quanto tempo cada uma leva e como transformar esse tempo em preço, com regras simples que valem para o seu próximo orçamento. O exemplo é de um eletricista fictício, MEI, que trabalha sozinho, e uma calculadora faz a conta com os seus números.
As etapas de um quadro de comando
Pense no eletricista do exemplo. Ele é MEI, trabalha sozinho e acaba de receber o pedido de um quadro de partida direta para quatro motores de uma pequena indústria. Sem CLP.
Antes de falar em preço, ele faz o que todo quadro pede. Visita o cliente e levanta o que o quadro vai acionar. Desenha o diagrama e monta a lista de material. Monta e testa o quadro na bancada. Leva até o cliente, instala e dá a partida. E, entre uma etapa e outra, pega a estrada três vezes.
Cada uma dessas etapas leva tempo, e é esse tempo que vai virar preço. Veja quanto cada uma leva num quadro desse tamanho:
As etapas do quadro, da visita à partida
- Visita e orçamento4 h
- Diagrama e lista de material4 h
- Montagem na bancada20 h
- Teste na bancada4 h
- Instalação no cliente8 h
- Partida4 h
- Estrada (ida e volta, três viagens)4 h
Ao todo
48 horas = 6 dias
São seis dias de trabalho, da visita à partida. Quem olha só para a bancada deixa mais da metade do serviço fora da conta.
A estrada aparece duas vezes no orçamento. As horas ao volante entram aqui, como tempo de trabalho. O combustível e o desgaste do carro entram depois, pelo km rodado.
Daqui sai a primeira regra prática. Conte as etapas do seu último quadro, e não as do quadro perfeito. Se sobrar dúvida, ponha meio dia a mais. O dia que faltar no orçamento sai do seu bolso.
Quem compra o material do quadro
Com as etapas na mão, o eletricista monta a lista de material. Disjuntores, contatores, relés térmicos, botoeiras, bornes, cabo e a caixa. Num quadro desses, a lista passa de 4 mil reais.
Aí vem a primeira decisão de dinheiro do orçamento. Quem compra esse material?
Se ele compra, adianta esse dinheiro do próprio bolso e só recebe depois. E, sendo MEI, tem um detalhe a mais. Tudo o que entra na mão dele no ano conta para o teto de 81 mil reais, com nota ou sem. O material conta também, mesmo sem ser renda dele. Com o material na conta dele, o teto chega antes do meio do ano.
Por isso, a regra prática do MEI é simples. Quem compra o material é o cliente. A nota da loja sai no nome dele, e a lista com marca e modelo só vai depois do aceite. Antes disso, ela vira cotação para o concorrente.
Combine também que o cliente entrega o material na sua bancada. Se vier peça errada, a ida à loja entra à parte. Deixe isso escrito na proposta.
O material é do cliente. O que é seu é o serviço.
Quanto custa o seu dia de trabalho
O quadro leva seis dias. Agora o eletricista precisa saber quanto custa um dia do trabalho dele. É esse número que transforma tempo em preço.
Ele quer tirar 4.500 reais por mês, limpos, para a casa dele. A conta rápida seria dividir isso pelos dias do mês. Mas nem todo dia do mês é pago por um cliente.
Pense na semana dele. Na segunda, ele faz dois orçamentos que não fecham. Na quarta, vai ao distribuidor buscar uma peça que faltou. Na sexta, volta num cliente para olhar um quadro em garantia. Foram três dias de trabalho, e nenhum deles entrou em nota.
No mês inteiro, sobram uns 15 dias pagos. A diária de custo divide o que ele quer tirar só por esses dias:
Calculadora da sua diária
R$ 4.500 ÷ 15 dias
R$ 300,00 por dia
Sua diária de custo
Na conta rápida (÷ 22 dias do mês): R$ 204,55 por dia
Com os números dele, o dia custa 300 reais. Quem divide pelo mês inteiro acha pouco mais de 200, e aí todo quadro sai barato. Esse é o custo do dia, e não o preço. O preço vem na próxima seção.
O seguro do carro, o celular, as ferramentas e o DAS não entram na diária. Eles entram nas contas fixas do mês, que vão aparecer na conta do preço.
Segunda regra prática. Anote, por um mês, cada dia em que um cliente pagou pelo seu trabalho. Esse número vale mais que qualquer tabela de preço da internet.
Só os dias pagos entram na conta da sua diária.
A conta do preço do quadro de comando
Agora o eletricista junta as duas pontas. Os seis dias do quadro e a diária de custo dele. Mais o km das três viagens, que é combustível e desgaste do carro:
Seus dias · 6 dias × R$ 300,00
R$ 1.800,00
Km rodado · 180 km × R$ 0,80
R$ 144,00
Custo do serviço
R$ 1.944,00
Esse é o custo do serviço. É o que sai do bolso dele para fazer o quadro. Se cobrar só isso, ele trabalha de graça.
Do custo ao preço, camada por camada
Em cima do custo entram três camadas. As contas fixas do mês, o DAS e o lucro.
Cada camada é uma fatia do preço final. Por isso o preço precisa abrir espaço para as três, e não só somar o custo com uma margem:
Do custo ao preço, camada por camada
- Custo do serviçoR$ 1.944,00
- + Contas fixas do mês, 10%R$ 263,84
- + DAS do MEI, 1,32%R$ 34,83
- + Lucro, 15%R$ 395,77
- = Preço do serviçoR$ 2.638,44
A mão de obra do quadro sai por pouco mais de 2.600 reais. Sem a fatia do lucro, sobra o piso, perto de 2.200 reais. Abaixo dele, ele trabalha seis dias para perder dinheiro.
Terceira regra prática. Dê o preço pelos dias, e não pelas peças. O material do cliente nem entra nessa conta.
Por que a porcentagem do material erra
Lembra da conta rápida da abertura? No mesmo quadro, ela daria uma porcentagem dos 4 mil reais de material. Mexa na porcentagem e nos dias, e veja quanto sobra por dia de trabalho:
A porcentagem contra os seus dias
Pela porcentagem
30% de R$ 4.000
R$ 1.200,00
Sobram R$ 153,36 por dia
Pelos seus dias
6 dias × R$ 300,00 + km
R$ 2.638,44
Sobram R$ 365,96 por dia
R$ 395,77 de lucro no quadro
Faltam R$ 1.438,44 para o preço pelos dias.
Com a porcentagem, sobram pouco mais de 150 reais por dia de trabalho. É metade da diária dele. Nem cobrando metade do material ele chegaria à diária.
Com material caro, como um inversor grande, a porcentagem erra para o outro lado. Ela passa do preço pelos dias, e o cliente fecha com outro. As peças não sabem quantos dias o serviço leva. Os dias sabem.
Dias viram preço. Peças, não.
Quanto cobrar por tipo de quadro de comando
O eletricista do exemplo não monta só esse quadro. Na semana que vem pode ser o quadro de uma bomba. No mês seguinte, um inversor de frequência numa coifa. A conta é sempre a mesma. O que muda é o número de dias.
A tabela abaixo usa a diária de 300 reais e o km do exemplo, com o material sempre do cliente. Os dias são os de quadros que um eletricista registrou em meio ano de orçamentos, arredondados. Troque pela sua diária e pelos seus dias:
| Tipo de quadro | Dias | Mão de obra |
|---|---|---|
| Um motor, partida direta | 4 | R$ 1.758,96 |
| Motor grande, estrela-triângulo ou soft starter | 5 | R$ 2.231,27 |
| Quatro motores, partida diretao quadro do exemplo | 6 | R$ 2.638,44 |
| Instalação de inversor de frequência | 2 | R$ 944,63 |
Repare no inversor. Ele custa mais que o material de um quadro de um motor, mas leva menos dias. Pelas peças, o inversor sairia mais caro. Pelos dias, sai mais barato. É essa a conta que o cliente compara com a do concorrente.
Quadro com CLP e IHM é outra conversa. Entram as horas de programação e um startup mais longo. O guia do painel de automação com CLP e IHM faz essa conta.
Quarta regra prática. Anote os dias de cada quadro que você entregar. Em seis meses, você terá a sua própria tabela, com os seus dias e a sua diária.
Cada quadro que você entrega vira uma linha da sua tabela.
As regras práticas da proposta
Com o preço na mão, falta escrever a proposta. É nela que o eletricista evita as dores que todo quadro traz.
Primeiro, o que está dentro e o que está fora. Ele lista o que entrega. Diagrama, montagem, teste na bancada, instalação e partida. E lista o que não entrega. Eletrocalha, passagem de cabo até os motores, obra civil. O que não está escrito, o cliente entende que está incluído.
Segundo, o material. O valor estimado entra na proposta, para o cliente saber o total da obra. A lista com marca e modelo só vai depois do aceite.
Terceiro, o pagamento. Metade no aceite e metade na partida. A entrada paga os dias de bancada antes de ele receber o resto.
Quarto, a validade. Dez dias. Depois disso, a agenda dele mudou, e o preço das peças também.
E tem o que o cliente escolhe. Relé de falta de fase, amperímetro na porta, horímetro, plaquetas gravadas, uma revisão um mês depois da partida. Nada disso é custo do quadro. São opções, cada uma com preço próprio, e o cliente enxerga o valor delas:
O quadro exige
custo, entra no preço
O cliente escolhe
opção, preço próprio
O cliente vai achar na internet quadro pronto bem mais barato. Ele chega sem diagrama, sem instalação e sem partida. Se o cliente fechar com o pronto, o seu preço é só o da instalação, pelos dias.
Quinta regra prática. Separe na proposta o que o quadro exige do que o cliente escolhe. Uma lista para cada.
O custo se repassa para não perder. A opção se oferece para ganhar.
Faça a conta do seu próximo quadro de comando
Agora é com você. A calculadora abaixo começa no quadro do exemplo, com o MEI ligado e o material comprado pelo cliente. Troque os dias, a diária e o km pelos seus, e o preço muda na hora.
DAS de 2026 para quem presta serviço: R$ 86,05 por mês, 1,32% do que entra no mês.
Começa no quadro do exemplo, com o material comprado pelo cliente. Troque pelos seus números: no app, cada linha vem do seu orçamento.
Demonstração de Resultado do quadro
Se o cliente não quiser comprar o material, ponha o valor dele na calculadora. A conta soma as contas fixas, o DAS e o lucro em cima, e você vê o seu teto encher mais rápido.
No Precifa, você guarda a sua diária e lança os dias de cada etapa, o km e o material. O preço sai com as contas fixas, o DAS e o lucro. O plano gratuito tem 5 orçamentos, sem cartão.
Perguntas frequentes
Quanto cobrar para montar um quadro de comando?
Pelos dias de trabalho, e não por uma porcentagem do material. Conte as etapas do quadro, da visita à partida, e multiplique pela sua diária de custo. Some o km. Depois, faça a divisão que abre espaço para as contas fixas, o DAS e o lucro. No exemplo deste texto, o quadro leva seis dias. A mão de obra sai por pouco mais de 2.600 reais, com o material comprado pelo cliente.
Qual o valor da diária de um eletricista MEI?
A diária tem dois valores. O custo é o que você quer tirar no mês, dividido pelos dias pagos. No exemplo deste texto, dá 300 reais. Para o cliente, a diária ainda paga as contas fixas, o DAS e o lucro, e sai perto de 410 reais. O km entra à parte. Quem divide pelos dias do mês inteiro acha uma diária menor, e trabalha de graça nos dias sem cliente.
MEI pode montar quadro de comando?
Instalar, sim. A lista do MEI tem a ocupação de eletricista e a de instalador de máquinas industriais. Montar com o material do cliente é serviço pela lei do ISS. Vender o quadro pronto, com material seu, é fabricar, e fabricar não está na lista. A Receita já tratou essa montagem como indústria. Por isso, deixe o material no nome do cliente e confirme a sua ocupação com o contador.
O que acontece se o MEI passar do teto de 81 mil?
Passou até 20%? Você sai do MEI no ano seguinte e paga imposto sobre o que passou, numa guia à parte. Passou mais de 20%? A saída vale desde janeiro do próprio ano, e o imposto do ano é refeito como microempresa. O teto conta tudo o que você recebe, com nota ou sem, inclusive o material que você compra e repassa. Se a agenda encher, leve ao contador a conta de sair do MEI.
A empresa paga mais para contratar um eletricista MEI?
Paga, quando é do Lucro Presumido, do Lucro Real, um condomínio ou um órgão público. Em regra, ela recolhe 20% de INSS sobre a sua nota de serviço elétrico. No Simples Nacional, só a empresa do Anexo IV paga. Pergunte quem é o contratante antes de mandar o preço, porque ele vai comparar você com quem não gera esse custo. Se pedir desconto por isso, não desça do seu piso.
Devo cobrar o tempo de deslocamento?
Quando o cliente fica longe, sim. A hora ao volante é hora de trabalho e entra nos dias do quadro, como na seção das etapas. Quando o serviço é perto de casa, essas horas já estão diluídas na sua diária, porque elas tiram dias pagos do mês. Nos dois casos, o km rodado entra à parte, pelo combustível e pelo desgaste do carro. Nunca conte a mesma estrada duas vezes.
Fontes consultadas
- Engehall, no YouTube: a mão de obra de um quadro de comando pela porcentagem do material (a conta rápida que o texto desmonta) (acessado em )
- Lei Complementar 123/2006, arts. 3º, 18-A (§§ 1º, 7º e 10) e 18-B: receita bruta, teto do MEI, excesso e o INSS de quem contrata MEI (acessado em )
- Receita Federal: Perguntas e Respostas do MEI (item 6.8, quem passa do teto) (acessado em )
- gov.br: pagamento da contribuição mensal do MEI (os impostos são fixos, independentes do faturamento) (acessado em )
- Receita Federal: Anexo XI da Resolução CGSN 140/2018 (ocupações permitidas ao MEI) (acessado em )
- IBGE: CNAE 2731-7/00, fabricação de equipamentos para distribuição e controle de energia (inclui quadros de comando) (acessado em )
- Lei Complementar 116/2003, lista de serviços, item 14.06 (montagem com material fornecido pelo usuário final) (acessado em )
- Receita Federal: Solução de Consulta SRRF06/Disit nº 27/2013 (montagem de quadro elétrico completo é industrialização), na LegisWeb (acessado em )
- Instrução Normativa RFB 2.110/2022, arts. 2º, 43 (inciso III) e 173: o condomínio equiparado a empresa e os 20% sobre o MEI de eletricidade (acessado em )